Enarc: da erudição a democratização da cultura
- O Aparelho Casa d'Nêgo
- 25 de jul.
- 3 min de leitura
Neste mês de julho acontece mais uma edição do ENARC, festival idealizado e produzido por artistas mairinquenses na década de 1980. Naquele período, Mairinque já reunia grandes talentos, mas o acesso à produção e à fruição cultural estava longe de ser acessível. Não por falta de boa vontade de quem organizava o evento, mas pelas circunstâncias da época. Os espaços públicos destinados à cultura eram escassos e a cidade ainda não possuía uma política cultural estruturada.




Lembro-me apenas do anfiteatro da Prefeitura e de dois palcos localizados em escolas públicas. A carência não era apenas de espaços, mas também de equipamentos, recursos e estrutura para que a atividade artística pudesse se desenvolver de forma contínua.
Outro aspecto importante era o perfil social de quem conseguia participar da vida cultural da cidade. Em Mairinque, muitas famílias ligadas à ferrovia e à imigração europeia haviam conquistado melhores condições econômicas e mantinham redes de relacionamento que facilitavam o acesso aos espaços de convivência, às associações e às atividades culturais. Enquanto isso, muitas outras famílias, chegaram à cidade em condições muito diferentes. Encontraram trabalho como operários de pequenas e médias empresas ou, muitas vezes, sobreviveram na informalidade, consequência da pobreza e do analfabetismo herdados de gerações anteriores. Não se tratava de uma diferença de talento, mas de oportunidades.
Era justamente essa desigualdade de condições que fez poucos projetos culturais prosperarem. Quem possuía recursos financeiros, equipamentos e tempo disponível podia se dedicar à carreira artística ou aos projetos culturais. Quem não possuía essas condições dificilmente conseguia permanecer nesse caminho.
Mesmo quando surgia alguma oportunidade, os ensaios dependiam de espaços privados, como o CASM ou a antiga Sociedade Recreativa Mairinquense (SRM). Essas associações concentravam parte importante da vida cultural da cidade, mas seu acesso era naturalmente limitado aos seus associados e frequentadores, o que restringia a participação de boa parte da população.
Cursos públicos de artes ou iniciativas semelhantes até apareciam em uma gestão ou outra. Entretanto, nunca passaram de ações isoladas. Não houve continuidade suficiente para transformá-las em uma verdadeira política pública de formação artística. Repetia-se o modelo de contratar professores de maneira pontual, sem coordenação pedagógica, planejamento de longo prazo ou estrutura capaz de consolidar uma Escola de Artes.
Política pública de verdade é aquela que possui planejamento, continuidade e sustentabilidade. Para isso, é indispensável uma estrutura mínima que permita sua execução. Mairinque nunca contou com um equipamento público adequado para sediar permanentemente atividades culturais. Os dois espaços mais tradicionais, a SRM e o CASM, sempre foram privados. Hoje, a SRM enfrenta uma disputa judicial, enquanto o antigo salão do CASM passou, há muitos anos, a ser utilizado pela Igreja Universal.
Sem profissionais qualificados contratados por processos que ofereçam estabilidade mínima e perspectiva de continuidade, torna-se muito difícil construir um projeto pedagógico consistente. O município acaba recorrendo a contratações pontuais, sem oferecer respaldo institucional nem condições para que os profissionais desenvolvam um trabalho de longo prazo.
Da mesma forma que um campinho de futebol pode despertar o sonho de uma criança e revelar um futuro atleta, um espaço cultural vivo pode revelar artistas, músicos, escritores, atores e produtores culturais. Quando existem salas abertas, equipamentos disponíveis, ensaios acontecendo, espetáculos em cartaz, estudantes circulando, livros acessíveis e pessoas convivendo, aumentam as possibilidades de surgirem boas ideias, novos projetos e talentos que talvez nunca fossem descobertos.
Mais importante ainda é que esses equipamentos públicos estejam disponíveis justamente para quem possui talento, mas nunca teve oportunidade de desenvolvê-lo. É essa capacidade de ampliar oportunidades que distingue uma política pública de uma simples ação cultural ou de um evento isolado.
Por isso, esta edição do ENARC talvez seja uma das mais significativas de sua história. Todas as anteriores tiveram sua importância, mas esta reúne características muito especiais. É inevitavelmente marcada pela emoção diante da perda de Jorge Derosa, idealizador do projeto, e do senhor Francisco Camargo, o querido Chico do Horto, ambos integrantes da diretoria da AMPF. Ao mesmo tempo, destaca-se pela qualidade, pela quantidade e pela diversidade das apresentações.
Nada disso acontece por acaso. É resultado de uma das políticas públicas mais importantes para a cultura: os editais de fomento. São eles que permitem que os recursos públicos cheguem diretamente aos artistas e produtores culturais, estimulando a criação de espetáculos, grupos, oficinas e novas iniciativas que fortalecem toda a cadeia cultural do município.
É justamente aí que voltamos ao ponto central desta reflexão. Democratizar a cultura significa criar oportunidades para que o talento deixe de depender da origem social, da renda ou das relações pessoais. E isso só acontece de forma permanente quando existe um Sistema Municipal de Cultura sólido, planejado e capaz de transformar ações isoladas em políticas públicas. Esse continua sendo o maior desafio, e também o caminho mais seguro para que o ENARC represente não apenas a celebração da nossa história cultural, mas, também, a construção de um futuro em que a arte pertença, de fato, a todos.



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